Nos últimos doze meses, ao menos dezesseis executivos de primeiro e segundo escalão pediram desligamento de estatais federais. O número, que circulou em listas internas de headhunters e foi cruzado pelo NoticiaHub com registros públicos de movimentação societária, é o maior desde 2017.

O que chama atenção não é apenas a quantidade. É o silêncio. Diferente de ciclos anteriores, em que saídas estavam atreladas a sucessão programada ou a crises públicas, a maioria dos desligamentos atuais não chegou à imprensa. Comunicados foram restritos a fatos relevantes mandatórios. Em ao menos cinco casos, equipes inteiras seguiram o líder em até dois meses.

O que mudou no ambiente

Em conversas reservadas, executivos relatam três fatores. O primeiro é a velocidade das mudanças em conselhos consultivos e de administração — composições redesenhadas duas, três vezes em um único ano. O segundo é o questionamento público sobre decisões técnicas que antes corriam internamente, hoje cobradas em audiências e em redes sociais. O terceiro, mais difícil de medir, é a sensação de que a próxima decisão estratégica vai ser revertida em ciclo eleitoral.

Eu não saí por dinheiro. Saí porque passei a usar metade do meu dia justificando decisões para gente que não conhece o nosso negócio.
Ex-diretor financeiro de estatal federal, em conversa com a coluna

Para onde vão

O destino mais comum é o setor privado nacional — empresas familiares que enxergam nessa onda uma janela rara para atrair talento sênior com remuneração competitiva. Em segundo lugar, fundos de investimento e gestoras, que vêm aumentando a presença de profissionais com experiência regulatória em seus quadros.

Uma minoria, e este talvez seja o ponto mais novo, vai para conselhos em empresas estatais estrangeiras — sobretudo em Portugal e na Colômbia, onde o ambiente regulatório se aproxima do brasileiro. Para um país que sempre importou expertise pública dos Estados Unidos e da Europa, é uma inversão silenciosa de fluxo.

Resta saber se essa movimentação se sustenta no segundo semestre. A próxima safra de eleições para conselhos, em outubro, pode reabrir ou consolidar o quadro.