A Eletrobras vai distribuir R$ 9,2 bilhões em dividendos referentes ao exercício de 2025. O número, divulgado em fato relevante na semana passada, foi recebido pelo mercado com alívio — mas reabriu, nos bastidores, uma disputa que envolve cifras maiores.

O Tesouro Nacional, sócio com pouco mais de 10% do capital da elétrica, vinha pressionando pela revisão da política de distribuição aprovada em 2023. Em pauta, R$ 30 bilhões em reservas estatutárias que o governo entende como passíveis de pagamento e que o conselho da companhia trata como base de capital para investimentos.

O argumento dos dois lados

Na ótica da União, parte das reservas foi acumulada durante o período pós-privatização sob regras que hoje não se justificam. O Tesouro pediu, em ofício enviado em abril, que o conselho avaliasse uma distribuição extraordinária — sem definir prazo, mas com pressão pública crescente.

Do lado do conselho, a leitura é diferente. A diretoria financeira sustenta que o ciclo de capex previsto para 2026–2028 — R$ 47 bilhões em transmissão e geração — exige preservação de caixa. Distribuir agora significaria recorrer a dívida mais cedo e em condições piores.

Esse é o teste mais relevante de governança desde a privatização. Como ele se resolver vai pautar o próximo edital de qualquer estatal listada.
Cláudia Ferraz, sócia da Vinson Advogados em direito societário

O que está em jogo além de 2026

Os fundos institucionais estrangeiros, que detêm cerca de 38% das ações em circulação, observam o caso com particular atenção. A pergunta que retorna em reuniões com analistas é se o controle indireto do governo — via golden share e influência política — basta para reabrir discussões que se imaginavam encerradas com o IPO secundário de 2023.

Se a tese do Tesouro prevalecer, gestores ouvidos pelo NoticiaHub estimam uma reprecificação para baixo entre 4% e 7% no múltiplo de bolsa de outras estatais listadas. Petrobras, Banco do Brasil e Sabesp seriam as mais expostas, ainda que em graus diferentes.